05 de fevereiro de 2025
6 minutos de leitura

Por que a ultrassonografia ainda é subutilizada na atenção primária?

Por que a ultrassonografia ainda é subutilizada na atenção primária?
Cardiologia

O uso da ultrassonografia clínica tem se mostrado uma ferramenta eficaz para agilizar as consultas pediátricas na atenção primária, conforme destaca um editorial publicado no periódico Anales de Pediatría.

O que é a Ultrassonografia Clínica?

A ultrassonografia clínica, também conhecida como ultrassonografia à beira do leito, refere-se ao uso do exame durante a avaliação clínica do paciente. Diferente de um exame sistemático, essa abordagem ajuda a responder questões específicas levantadas pelo médico após o exame físico. Segundo a Dra. Susana Viver Gómez, pediatra vinculada ao Centro de Salud Dr. Luengo Rodríguez, na Espanha, a ultrassonografia à beira do leito é uma ferramenta inofensiva, portátil e custo-efetiva, permitindo um diagnóstico mais rápido e preciso, sem a necessidade de encaminhamentos desnecessários.

Benefícios da ultrassonografia na pediatria

Para a pediatria, a ultrassonografia oferece diversas vantagens:

  • Maior segurança diagnóstica: possibilita uma avaliação mais precisa sem exposição à radiação;
  • Redução da necessidade de exames complementares: evita exames mais invasivos e demorados;
  • Atendimento mais ágil: facilita a tomada de decisão rápida e melhora a eficiência da consulta;
  • Baixo impacto no tempo da consulta: para pediatras treinados, o exame não prolonga significativamente a duração do atendimento.

Ultrassonografia Pulmonar: um recurso essencial

A ultrassonografia pulmonar se destaca como um dos usos mais vantajosos da técnica na pediatria. Seu aprendizado é relativamente simples, pois exige apenas conhecimentos básicos de anatomia torácica.

“A curva de aprendizado da ultrassonografia pulmonar é curta, sendo fácil de aprender e acessível para muitos médicos”, explica a Dra. Susana. Ela também destaca que a pneumonia é uma das doenças mais comuns em crianças e pode ser diagnosticada de forma eficaz por meio dessa técnica.

Ultrasonografia Pulmonar

Estudos apontam que a ultrassonografia pulmonar tem uma sensibilidade de 95% e especificidade de 96% no diagnóstico de pneumonia em crianças, números comparáveis à radiografia, que apresenta sensibilidade de 87% e especificidade de 98%.

Além disso, a ultrassonografia pulmonar também é altamente precisa na detecção de efusões pleurais (sensibilidade de 94% e especificidade de 96%) e no diagnóstico de pneumotórax, sendo tão eficaz quanto ou superior à radiografia.

“Precisamos entender que a ultrassonografia pulmonar fornece mais informações do que uma radiografia. Em mãos experientes, é possível completar o exame em menos de cinco minutos, localizando com precisão a lesão e sua dimensão, sem a necessidade de radiação”, enfatiza a Dra. Susana.

Outras aplicabilidades na atenção primária

Além da ultrassonografia pulmonar, outras avaliações ecográficas também demonstram grande utilidade na atenção primária, como:

  • Ultrassonografia cutânea: pode evitar a necessidade de biópsias em alguns casos;
  • Ultrassonografia musculoesquelética: permite diagnósticos precisos sem exposição à radiação ionizante.

Por que a ultrassonografia ainda é pouco utilizada?

Apesar de seus benefícios, a ultrassonografia à beira do leito ainda é pouco explorada na atenção primária. Um levantamento realizado na Espanha em 2018 com 273 pediatras mostrou que, embora 47% tivessem formação em ultrassonografia, apenas 18% a utilizavam em sua prática diária. Outro estudo recente indicou que, de 212 pediatras que tinham acesso a um aparelho de ultrassonografia, apenas 28% o usariam em casos de suspeita de pneumonia.

A Dra. Susana destaca que, apesar das evidências científicas favoráveis, a maioria dos profissionais ainda opta pela radiografia como exame padrão. Um dos principais desafios é a falta de treinamento durante a formação médica.

“Poucos hospitais incluem a ultrassonografia como parte do treinamento dos residentes em pediatria. Outras especialidades, como a ginecologia, adotaram essa prática há anos, mas na pediatria ainda estamos atrasados. Precisamos incorporar essa ferramenta na formação dos pediatras, tanto em ambiente hospitalar quanto na atenção primária”, enfatiza.

Conclusão

A ultrassonografia clínica representa um avanço significativo na pediatria da atenção primária, promovendo diagnósticos mais rápidos, seguros e eficientes. Seu uso pode reduzir encaminhamentos desnecessários, diminuir a necessidade de exames complementares e melhorar a qualidade do atendimento infantil.

Para que essa tecnologia seja amplamente adotada, é essencial investir na capacitação dos pediatras e incorporar a ultrassonografia nos programas de formação. Com essas medidas, a atenção primária pode se tornar mais resolutiva, beneficiando tanto os profissionais de saúde quanto os pacientes.
Fonte: Univadis