
As doenças cardiovasculares (DCV) continuam sendo uma das principais causas de mortalidade global. Em 2021, uma revisão conduzida por Peter Libby destacou a necessidade de novas estratégias para reduzir o impacto da aterosclerose. Nesse contexto, a tecnologia de edição genética CRISPR, aplicada à PSCK9 em primatas, e os inibidores da PSCK9 já aprovados desde 2015, surgiram como alternativas promissoras.
Agora, uma nova fronteira se abre com a interferência no ácido ribonucleico (RNA), revolucionando o tratamento de várias condições, incluindo as cardiovasculares. O reconhecimento dessa abordagem pode ser observado nos Prêmios Nobel recentes, conferidos a pesquisadores que impulsionaram a tecnologia de RNA mensageiro e a descoberta do microRNA, essenciais para a regulação da atividade genética.
Como a terapia por RNA funciona?
A biologia celular nos ensina que a expressão gênica ocorre em quatro etapas fundamentais:
- Genoma: Contém toda a informação hereditária do organismo.
- Transcriptoma: Representa os RNAs mensageiros, ribossômicos, transportadores e microRNAs, que regulam a expressão gênica.
- Proteoma: Abrange as proteínas e suas variantes presentes nas células em resposta a diferentes estímulos.
- Metaboloma: Determina os metabólitos que definem o fenótipo.
Dessa forma, a nova estratégia terapêutica se concentra no transcriptoma, interferindo diretamente na expressão dos genes e abrindo caminho para tratamentos mais eficazes e personalizados.
Aplicativos promissores da terapia por RNA em cardiologia
A terapêutica via RNA apresenta um potencial significativo no tratamento de várias condições cardiovasculares, incluindo:
- Redução do colesterol LDL: Inclisiran já aprovado.
- Controle da lipoproteína (a): Zerlasiran em fase avançada de estudo.
- Prevenção de tromboses: Interferência no fator XI e inibição do fator Xa.
- Tratamento da hipertensão: Zilebesiran para regulação do angiotensinogênio hepático.
- Manejo da cardiomiopatia por amiloidose: Vutrisiran demonstrando eficiência.
- Retardo da estenose aórtica: Redução de fosfolipídeos oxidados.
Implicações e desafios da terapia com RNA
A utilização da tecnologia de interferência por RNA está sendo explorada não apenas para DCV, mas também para outras condições, como câncer, doenças neurológicas, infecções virais e doenças metabólicas. Estudos indicam que os RNA circulantes desempenham um papel fundamental no envelhecimento e na senescência celular, influenciando o desenvolvimento e a progressão das doenças.
Entretanto, desafios importantes ainda precisam ser superados para a ampliação da aplicação dessa tecnologia:
- Precisão no direcionamento dos microRNAs, evitando efeitos fora do alvo.
- Minimização de respostas imunológicas, garantindo segurança ao paciente.
- Aprimoramento dos métodos de entrega para atingir as células-alvo com eficiência.
- Definição da dosagem ideal, maximizando a eficácia terapêutica e reduzindo os efeitos adversos.
Conclusão
Apesar dos desafios, a terapia por RNA representa uma revolução na medicina cardiovascular e em outras áreas da saúde. A evolução desse campo promete transformar o tratamento de doenças complexas, abrindo novas perspectivas para a prevenção e a cura. O progresso nessa área é um passo fundamental na luta contra as doenças cardiovasculares e outras patologias crônicas que impactam milhões de vidas ao redor do mundo.