05 de fevereiro de 2025
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Muito exercício pode fazer mal ao coração?

Muito exercício pode fazer mal ao coração?
corrida de longa distancia

Atletas de alto desempenho e pessoas que praticam exercícios de resistência, como corrida e ciclismo, podem apresentar alterações cardíacas ao longo da vida. No entanto, isso não significa que devam abandonar a prática esportiva, pois esses indivíduos ainda possuem maior longevidade do que os sedentários, conforme destacou o Dr. Paul D. Thompson, especialista em cardiologia do Hartford Hospital e professor emérito da University of Connecticut, durante o 19º Congresso Internacional de Medicina Interna do Hospital de Clínicas da Universidad de Buenos Aires (CLINICAS24).

O especialista recomenda que qualquer sintoma anormal durante a prática de exercícios, como dificuldades respiratórias, batimentos cardíacos irregulares ou dor torácica, deve ser avaliado por um médico.

“Embora o exercício seja benéfico para o coração, não há garantia de que não possa causar problemas”, enfatizou o Dr. Thompson.

Benefícios do Exercício e Limiares Recomendados

O maior impacto positivo do exercício na saúde cardiovascular ocorre ao passar do sedentarismo para uma rotina ativa. Segundo diretrizes do Departamento de Saúde dos EUA, recomendam-se 150 a 300 minutos semanais de atividade moderada (como caminhada) ou 75 a 150 minutos de atividade vigorosa (como corrida ou ciclismo). Estudos indicam que ultrapassar significativamente esses limites pode trazer benefícios adicionais, mas de forma menos expressiva.

Um estudo publicado no Circulation em 2022 acompanhou mais de 110.000 adultos e demonstrou que aqueles que praticavam até 900 minutos de exercício semanal apresentavam redução da mortalidade por doenças cardiovasculares. Contudo, ao ultrapassar os 150-200 minutos semanais de atividade vigorosa, a curva de redução da mortalidade se estabilizava, sugerindo um ponto ótimo de exercício para maximizar os benefícios.

Impactos do Exercício Extremo no Coração

Durante a prática de atividades intensas, pode haver aumento temporário do risco de eventos cardiovasculares, como formação de coágulos e estiramento das artérias. Além disso, a análise de biomarcadores indicou que maratonistas frequentemente apresentam aumento da troponina, um possível indicador de sobrecarga cardíaca.

A longo prazo, treinos intensos de resistência estão associados a alterações estruturais no coração, como disfunção ventricular direita, aumento da incidência de fibrilação atrial e calcificação arterial coronariana. Estudos recentes também correlacionam altos volumes de exercício com maior necessidade de implantação de marcapassos devido a bradicardia.

Um caso histórico ilustra essa questão: o maratonista Clarence DeMar (1888-1958), sete vezes vencedor da Maratona de Boston, teve sua autópsia revelando significativa aterosclerose, apesar de sua excelente forma física. Já Ambrose “Amby” Burfoot, vencedor da Maratona de Boston em 1968, apresentou um alto escore de cálcio arterial coronário após décadas de treinos intensos.

O Papel do Tamanho Cardíaco e a Longevidade dos Atletas

Corações de atletas de resistência tendem a ser maiores, e isso pode estar ligado a complicações como dilatação do átrio e formação de cicatrizes. Contudo, mesmo com possíveis alterações estruturais, atletas de resistência continuam vivendo mais do que indivíduos sedentários.

“Se você tem um coração forte, mesmo que ele sofra algum dano, ele ainda funcionará melhor do que o de um sedentário”, explicou o Dr. Thompson. “Além disso, a maioria dos que treinam intensamente não o faz apenas por saúde, mas porque amam o esporte e o estilo de vida que ele proporciona.”

Como Balancear Exercício e Saúde Cardíaca

O grande desafio para cardiologistas e profissionais de saúde é encontrar o equilíbrio entre incentivar a prática esportiva e monitorar possíveis efeitos adversos. Conforme enfatizou o Dr. Jorge Franchella, especialista em medicina esportiva da Universidade de Buenos Aires, “os médicos deveriam tratar o exercício como um medicamento, prescrevendo sua frequência e intensidade de acordo com o paciente”.

Por fim, o maior problema da atualidade ainda é o sedentarismo. Enquanto os riscos de exercício extremo são estudados, a falta de atividade física continua sendo uma das principais ameaças à saúde global. O objetivo não é desencorajar a prática esportiva, mas sim entender seus impactos para garantir uma vida longa e saudável.