06 de fevereiro de 2025
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Diabéticos não precisam de jejum prolongado antes de cirurgia

Diabéticos não precisam de jejum prolongado antes de cirurgia
cirurgia

Um estudo conduzido por anestesiologistas revelou que pacientes com diabetes, ao seguirem as diretrizes-padrão de jejum pré-operatório, não apresentam maior volume gástrico em comparação com indivíduos sem diabetes. No entanto, um endocrinologista questionou a validade da pesquisa, destacando que os participantes eram mais saudáveis do que a média de pacientes com diabetes tipo 1 e tipo 2.

Impacto dos agonistas do GLP-1 no esvaziamento gástrico

Atualmente, essa discussão se torna ainda mais complexa devido ao uso generalizado dos agonistas do receptor do peptídeo 1 glucagonoide (GLP-1), medicamentos que retardam o esvaziamento gástrico. Esses fármacos não foram considerados no estudo, uma vez que sua formulação ocorreu após a inscrição dos participantes.

Metodologia e resultados do estudo

O estudo prospectivo avaliou 84 pacientes com diabetes (85% com tipo 2) e 96 indivíduos sem diabetes, todos com IMC inferior a 40, submetidos a cirurgias eletivas. Eles seguiram diretrizes-padrão de jejum, interrompendo alimentos sólidos oito horas antes do procedimento e consumindo apenas líquidos claros até duas horas antes da cirurgia.

A ultrassonografia gástrica mostrou que não houve diferença significativa no volume gástrico entre os dois grupos (0,81 mL/kg em pacientes com diabetes vs. 0,87 mL/kg em indivíduos sem diabetes). A presença de “estômago cheio” foi identificada em 15,5% dos pacientes com diabetes e 11,5% dos indivíduos sem diabetes, segundo critérios da American Society of Anesthesiologists (ASA).

Especialistas questionam os achados

A Dra. Anahi Perlas, autora principal do estudo e professora da University of Toronto, afirmou que os resultados indicam que pacientes com diabetes geralmente não necessitam de orientações de jejum diferenciadas para minimizar o risco de aspiração pulmonar. No entanto, enfatizou a importância da ultrassonografia gástrica para pacientes com sintomas de gastroparesia.

O Dr. Mark A. Warner, anestesiologista da Mayo Clinic, apontou limitações no estudo, como a exclusão de pacientes com IMC acima de 40 anos. Já o Dr. Michael Horowitz, endocrinologista e especialista em complicações gastrointestinais, criticou a seleção da amostra, argumentando que os participantes eram mais saudáveis do que a população geral com diabetes, o que pode ter influenciado os resultados.

Revisão das diretrizes de jejum

O Dr. Horowitz também criticou a revisão das diretrizes da ASA de 2017, que permite a ingestão de líquidos claros até duas horas antes da anestesia, sem distinção entre líquidos com e sem calorias. Ele apontou que essa abordagem pode resultar na permanência de líquidos no estômago, o que pode comprometer a segurança do paciente.

Os desafios dos agonistas do GLP-1

Os medicamentos agonistas do GLP-1 foram destacados no editorial do Dr. Warner como um fator adicional de risco para aspiração pulmonar. Ele ressaltou que a orientação da ASA de 2023, que recomenda suspender esses medicamentos antes da cirurgia (um dia para formulações diárias e sete dias para formulações semanais), pode ser insuficiente. Estudos indicam que a liraglutida pode retardar o esvaziamento gástrico por até 16 semanas, levantando dúvidas sobre a eficácia dessas recomendações.

Conclusão

O estudo reforça que pacientes com diabetes, na maioria dos casos, não necessitam de um jejum mais prolongado do que indivíduos sem a condição. No entanto, a presença de sintomas de gastroparesia ou o uso de agonistas do GLP-1 são fatores que devem ser considerados individualmente. A ultrassonografia gástrica se destaca como uma ferramenta valiosa para avaliação pré-operatória em casos duvidosos. Estudos futuros serão essenciais para revisar e aprimorar as diretrizes de jejum pré-operatório.