
Um estudo conduzido por anestesiologistas revelou que pacientes com diabetes, ao seguirem as diretrizes-padrão de jejum pré-operatório, não apresentam maior volume gástrico em comparação com indivíduos sem diabetes. No entanto, um endocrinologista questionou a validade da pesquisa, destacando que os participantes eram mais saudáveis do que a média de pacientes com diabetes tipo 1 e tipo 2.
Impacto dos agonistas do GLP-1 no esvaziamento gástrico
Atualmente, essa discussão se torna ainda mais complexa devido ao uso generalizado dos agonistas do receptor do peptídeo 1 glucagonoide (GLP-1), medicamentos que retardam o esvaziamento gástrico. Esses fármacos não foram considerados no estudo, uma vez que sua formulação ocorreu após a inscrição dos participantes.
Metodologia e resultados do estudo
O estudo prospectivo avaliou 84 pacientes com diabetes (85% com tipo 2) e 96 indivíduos sem diabetes, todos com IMC inferior a 40, submetidos a cirurgias eletivas. Eles seguiram diretrizes-padrão de jejum, interrompendo alimentos sólidos oito horas antes do procedimento e consumindo apenas líquidos claros até duas horas antes da cirurgia.
A ultrassonografia gástrica mostrou que não houve diferença significativa no volume gástrico entre os dois grupos (0,81 mL/kg em pacientes com diabetes vs. 0,87 mL/kg em indivíduos sem diabetes). A presença de “estômago cheio” foi identificada em 15,5% dos pacientes com diabetes e 11,5% dos indivíduos sem diabetes, segundo critérios da American Society of Anesthesiologists (ASA).
Especialistas questionam os achados
A Dra. Anahi Perlas, autora principal do estudo e professora da University of Toronto, afirmou que os resultados indicam que pacientes com diabetes geralmente não necessitam de orientações de jejum diferenciadas para minimizar o risco de aspiração pulmonar. No entanto, enfatizou a importância da ultrassonografia gástrica para pacientes com sintomas de gastroparesia.
O Dr. Mark A. Warner, anestesiologista da Mayo Clinic, apontou limitações no estudo, como a exclusão de pacientes com IMC acima de 40 anos. Já o Dr. Michael Horowitz, endocrinologista e especialista em complicações gastrointestinais, criticou a seleção da amostra, argumentando que os participantes eram mais saudáveis do que a população geral com diabetes, o que pode ter influenciado os resultados.
Revisão das diretrizes de jejum
O Dr. Horowitz também criticou a revisão das diretrizes da ASA de 2017, que permite a ingestão de líquidos claros até duas horas antes da anestesia, sem distinção entre líquidos com e sem calorias. Ele apontou que essa abordagem pode resultar na permanência de líquidos no estômago, o que pode comprometer a segurança do paciente.
Os desafios dos agonistas do GLP-1
Os medicamentos agonistas do GLP-1 foram destacados no editorial do Dr. Warner como um fator adicional de risco para aspiração pulmonar. Ele ressaltou que a orientação da ASA de 2023, que recomenda suspender esses medicamentos antes da cirurgia (um dia para formulações diárias e sete dias para formulações semanais), pode ser insuficiente. Estudos indicam que a liraglutida pode retardar o esvaziamento gástrico por até 16 semanas, levantando dúvidas sobre a eficácia dessas recomendações.
Conclusão
O estudo reforça que pacientes com diabetes, na maioria dos casos, não necessitam de um jejum mais prolongado do que indivíduos sem a condição. No entanto, a presença de sintomas de gastroparesia ou o uso de agonistas do GLP-1 são fatores que devem ser considerados individualmente. A ultrassonografia gástrica se destaca como uma ferramenta valiosa para avaliação pré-operatória em casos duvidosos. Estudos futuros serão essenciais para revisar e aprimorar as diretrizes de jejum pré-operatório.