
Foi identificado por pesquisadores um padrão claro de variação diurna na saúde mental e bem-estar. Em uma análise de quase 1 milhão de observações ao longo de dois anos, verificou-se que as pessoas geralmente se sentem melhor ao acordar e pior por volta da meia-noite.
Contexto
O humor varia ao longo das estações, dos dias da semana e até mesmo durante o dia. No entanto, ainda há dúvidas sobre como essas mudanças impactam a saúde mental.
Estudos indicam que fatores fisiológicos e ambientais desempenham um papel crucial nessas oscilações. Hormônios como o cortisol atingem o pico ao despertar e diminuem ao longo do dia, atingindo os níveis mais baixos entre 20h e 4h. Além disso, aspectos externos como luz solar, temperatura, ruído e poluição do ar também influenciam o bem-estar.
Metodologia
A pesquisa analisou dados de 49.218 adultos do estudo COVID-Social Study, da University College London (Reino Unido). Os participantes forneceram um total de 908.769 observações entre março de 2020 e março de 2022, com uma média de 18,5 observações por pessoa.
Os cientistas utilizaram modelos estatísticos para avaliar a relação entre o horário do dia e quatro aspectos da saúde mental:
- Depressão (PHQ-9);
- Ansiedade (GAD-7);
- Bem-estar geral (felicidade, satisfação com a vida e sentido de vida);
- Percepção de solidão (Escala UCLA-3).
Principais descobertas
- A saúde mental é melhor ao acordar e piora ao longo do dia, atingindo o pior nível por volta da meia-noite;
- O bem-estar é maior durante o verão;
- A variação do humor é maior nos finais de semana do que nos dias úteis;
- A percepção de solidão é relativamente estável ao longo do dia, enquanto o bem-estar hedônico (prazer imediato) e eudaimônico (realização pessoal) apresentam maior flutuação.
Aplicação prática
Compreender essas oscilações temporais é essencial para otimizar intervenções em saúde mental e melhorar a eficácia dos serviços. Considerar o horário, o dia da semana e a estação do ano pode tornar os tratamentos mais personalizados e eficazes.
“Nossas descobertas reforçam a importância de incluir esses fatores no planejamento de pesquisas, intervenções e serviços de saúde pública”, destacam os autores do estudo.
O estudo foi liderado por Feifei Bu, da University College London, e publicado na BMJ Mental Health.
Limitações da pesquisa
Os pesquisadores apontam algumas limitações:
- A amostra não foi aleatória, embora ponderada para refletir a população nacional;
- Não foi possível determinar completamente por que os participantes responderam em diferentes horários ou dias da semana;
- O estudo foi realizado apenas na Inglaterra, o que pode limitar sua aplicação em outras regiões com climas e latitudes distintas.
Conflitos de interesse
A pesquisa foi financiada pela Fundação Nuffield, pela Rede de Saúde Mental MARCH e pelo Wellcome Trust. Os autores não relataram conflitos de interesse relevantes.
Conclusão
O estudo reforça a importância de considerar os padrões diurnos na saúde mental para melhorar as estratégias de prevenção e tratamento. Para uma abordagem mais eficaz, é fundamental ajustar as intervenções aos momentos do dia em que as pessoas estão mais vulneráveis.